Os riscos que podem decorrer das atividades espaciais

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A segunda corrida já começou e passa por Portugal – Sapo24
24 de Novembro de 2018

Uma notícia que passa como que despercebida e parece dizer mais do mesmo, traz finalmente à luz do dia algumas questões prementes.

Neste “novo mundo”, a posição geoestratégica torna os Açores um espaço particularmente interessante, já que poucos outros locais permitem um acesso simultâneo à Europa, à costa ocidental de África, à América do Norte e à América Latina.

Este é o verdadeiro interesse por detrás da construção de um porto espacial no meio do Atlântico, o acesso simultâneo a diversos locais e, consequentemente, a diversos mercados. A conversa do Sr. Luís Santos na sessão de esclarecimentos em Setembro deste ano, a única iniciativa do Governo Regional em informar os residentes até então, sobre a impossibilidade de ter um porto espacial em Canárias ou no Porto Santo porque poderia atingir África, confirma-se agora como absolutamente falsa. Basta saber do projeto da PLD Space em El Aresonillo, no Sul de Espanha para perceber como essa argumentação pretendia apenas iludir os presentes. Se verificarem a localização deste último porto espacial projetado, verão uma enorme área desprovida de quaisquer residências, aliás, a localidade mais próxima, Mazagón, encontra-se a mais de 7km do sítio do lançamento, porque será?
Considerando os mercados que se quer atingir, alguém ainda acha que a ideia é só fazer 12 lançamentos por ano?

A segurança é também outro aspeto relevante. Por um lado, a tecnologia espacial é tendencialmente de duplo-uso (isto é, civil e militar), sendo certo que um porto pode também, se tal for previsto, ser utilizado para fins militares.

Pois é, o uso militar também é uma possibilidade. Naquilo que se antecipa ser uma guerra “comercial”, Santa Maria pode tornar-se num importante pólo de estratégia militar e ser alvo de cobiça e luta pelas grandes potências mundiais. Terá o Governo Português capacidade para proteger um território que entregou sempre de mão-beijada aos Estados Unidos e a quem nem sequer quis/pôde fiscalizar a sua atividade? Um Governo Português que nem sequer conseguiu exigir aos E.U.A a descontaminação ambiental das Lajes?

Por outro, as atividades espaciais que ocorrem em portos recorrem a materiais explosivos e combustíveis (e por vezes nucleares), o que exige especial atenção para o seu armazenamento, transporte e manuseamento e ao cumprimento das regras vigentes nestas matérias. Todos estes temas impactam numa questão mais ampla que é a segurança das populações, incluindo nas rotas de lançamentos dos foguetões, razão pela qual os critérios em linha de conta na decisão de localização de um porto espacial incluem a densidade populacional, condições meteorológicas e complexidade do espaço aéreo.

Aqueles que se sentem confortáveis nas suas residências na Vila e julgam que o perigo reside só na área de Malbusca, já perceberam o tipo de material que vai chegar ao porto e passear por toda a Ilha? Já perceberam ou não os riscos que todos corremos? Não é à toa que se escolhem locais com baixa densidade populacional, é porque a atividade espacial tem enormes riscos.
O porto vai estar obviamente condicionado quando houver a chegada destes materiais e também quando houver lançamentos. O transporte de bens essenciais à população estará para segundo plano, as nossas necessidades serão secundárias, a livre circulação pelo nossa terra estará restringida, é isto o progresso?