Turismo certificado pela Natureza ou pela Agência Espacial Portuguesa?

Carlos Rodrigues, Presidente da Câmara de Vila do Porto revelou recentemente que, no decorrer deste ano, o município se propõe promover um Encontro-reflexão sobre o turismo na ilha de Santa Maria. O louvável e muito oportuno evento tem como finalidade principal “reunir sinergias entre entidades e agentes locais e regionais na reflexão sobre o estado do Turismo na ilha, bem como os desafios futuros da área”.

Não deixa de ser por isso curiosa esta intervenção perante a RTP Açores do nosso estimado Presidente ao revelar total receptividade da autarquia aos projetos espaciais, inclusivé, ao infame porto espacial de Malbusca. Ao mesmo tempo que se propõe uma reflexão sobre o Turismo em Santa Maria, diz-se perante as câmeras que “temos que pensar no futuro, é preciso que venham coisas novas, o que nós temos é muito pouco”. Ora é bem sabido que a autarquia desconhece totalmente o potencial turístico da ilha, basta ver que, ano após ano, aloca os fundos para promoção turística da ilha para divulgação dos festivais Maré de Agosto e Santa Maria Blues. Excelentes iniciativas que devem ser acarinhadas pela autarquia, mas que pouco contribuem para publicitar as nossas mais-valias a nível turístico.

Quanto ao resto da entrevista, por muito enternecedora que seja a bonomia do nosso Presidente, é preciso relembrá-lo do seu papel de último reduto na defesa dos interesses dos marienses, e para isso não vamos lá com wishful thinking. Não podemos ser tão inocentes e ingénuos quando se fala de tanto dinheiro e de uma pequena ilha com poucos habitantes – é bastante óbvio qual pesa mais na balança para os governantes da nação e da Região. Quanto ao que pensa a maioria da população de Santa Maria, sondagens baseadas em likes no Facebook não são boa medida. Sr. Presidente, é da sua competência convocar um referendo sobre esta matéria e garantir que são os marienses que têm a última palavra!

Falemos agora então da dicotomia proposta para Santa Maria: porto espacial e turismo de Natureza.

Apesar da proximidade geográfica em relação a São Miguel, os obstáculos ao desenvolvimento do turismo têm sido alguns e esta ilha só recentemente começou a trilhar o seu caminho próprio no mais importante sector de actividade do século XXI, vendendo aquilo que tem de diferente: uma conjunção inigualável entre património natural e património construído, natureza e cultura, história e geologia, mar e serra, praia e campo. Os sinais dessa crescente vitalidade estão aí, para quem os quiser ver: transportes aéreos em curva ascendente desde 2014 (apesar das dificuldades que a desorganização do sector impõe); rendimento gerado pela hotelaria e restauração a crescer de €785.804 em 2015 para €1.295.72 em 2017; época alta a passar gradualmente de três para cinco meses.

“Certificados pela Natureza”, é este o slogan encontrado pelo Governo Regional para publicitar os Açores enquanto destino turístico por excelência. Ora, um projecto como este retiraria a ilha de Santa Maria dessa estratégia regional. Se o porto espacial da Malbusca fosse construído, Santa Maria hipotecaria irremediavelmente a sua imagem e divergiria do resto do arquipélago no preciso momento em que ele se assume como um destino mundial de eleição para o turismo verde, sustentável, de natureza.

Há portanto que avaliar os danos irrecuperáveis que o porto espacial irá trazer ao desenvolvimento da actividade turística em Santa Maria. E como podemos nós ter uma noção real desses impactos negativos?

  • Quantificando o número de residentes e turistas, nacionais e estrangeiros, dispostos a abandonar a ilha ou a ela não regressar, caso o projecto avance;
  • Avaliando o previsível decréscimo das entradas e estadias de iatistas na marina de Vila do Porto;
  • Avaliando o efeito repelente de um porto espacial em relação à actividade de mergulho nos mares de Santa Maria;
  • Calculando as repercussões no turismo das restrições à navegação na costa sul, associadas a um corredor de lançamentos espaciais;
  • Considerando a profunda incompatibilidade entre os objectivos do paleoparque de Santa Maria (recentemente criado) e a interdição a visitas nas cinco jazidas fósseis localizadas nas arribas de Malbusca;
  • Considerando a total incompatibilidade de propósitos entre a fruição do geosítio da Ribeira de Maloás e o lançamento de foguetões a menos de 100 metros deste monumento geológico;
  • Imaginando o impacto visual deste projecto sobre a relação privilegiada que Malbusca (o mais importante e bem conservado núcleo de casas rurais marienses) estabelece como a montanha e o mar;
  • Ponderando as consequências decorrentes do perímetro de segurança da pretendida base espacial cortar ao meio a Grande Rota de Santa Maria, amputando-o de um importante segmento com vários quilómetros de extensão

Alguém imagina muitos turistas dispostos a virem mergulhar com jamantas numa ilha “100% espacial”? E quanto a trilhos pedestres ao lado de estradadas condicionadas, por onde circula o combustível sólido dos propulsores? E alojamento local, paredes meias com o estrondo dos foguetões? Ou fruição da natureza com um rasto de fogo a cruzar o céu? Haverá Praia Formosa capaz de sobreviver à debandada dos veraneantes, em busca de paz e sossego?

Turismo espacial, dizem eles… Trocar o turismo de natureza por esse nicho de mercado para meia dúzia de nerds é como vender uma bezerra jovem e saudável para comprar um burro de óculos, que nem coices sabe dar.

Um pensamento sobre “Turismo certificado pela Natureza ou pela Agência Espacial Portuguesa?

  1. Pucheu Denise

    Cela serait une grande erreur de construire une plateforme spéciale à Malbusca Santa Maria .Pour la protection de la nature et l’environnement,les fonds marins et les habitants ,aucune étude n’a été faite pour savoir l’lmpact et les conséquences.Je possède une maison à Malbusca et je ne suis pas d’accord.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *