Cucos e outros passarões

Lá continua ele a avançar, o lobi das companhias espaciais, como um polvo que, tentáculo a tentáculo, se agarra ao pescoço de Santa Maria. O objectivo é claro: meterem um pé-de-cabra em Malbusca e – escancarada essa porta – alaparem-se em cima da ilha com jeitos de locatário que paga renda baixa por um apartamento com certificado de sustentabilidade e vista sobre o mar. Chamam eles a isto “transformar Santa Maria numa ilha 100% espacial”. E para o conseguir, omitem factos, contornam problemas, fazem bluff, apresentam o porto espacial de Malbusca como coisa consumada. É nesta estratégia de ilusionismo barato que se insere a decisão de sediar a futura Agência Espacial Portuguesa no município de Vila do Porto: o bolo-rei, claro, fica em Matosinhos, Peniche (construção de satélites) e Terceira (Air Center). Para Santa Maria está reservada a fatia da fava (os foguetões que ninguém quer) e um brinde de pechisbeque (meia dúzia de funcionários fantasma na dita Agência, à semelhança da tristemente célebre “Ilhas de Valor”).

O parecer da ALRAA que passou convenientemente despercebido

Entretanto, à boa maneira portuguesa, o Decreto-Lei do Governo da República que deverá estabelecer o Regime de Acesso e Exercício das Actividades Espaciais ainda não foi sequer publicado. No entanto, o seu enunciado já circulou na Comissão de Economia da ALRAA, que a 24 de Outubro emitiu opinião sobre o assunto. Nesse parecer – aparentemente “secreto,” considerando a sua omissão pela comunicação social regional – constam, sem surpresa, os votos favoráveis do PS e do PSD e a abstenção do CDS. O que espanta é a posição do Bloco de Esquerda:

O Grupo Parlamentar do BE emite parecer desfavorável em relação ao presente Projeto de Decreto-Lei, porque, na nossa opinião, tendo em conta as diversas consequências associadas a objectivos nem sempre claros, não acolhe as necessárias medidas de precaução que tão grande envolvência deveria obrigar, nomeadamente, entre outras, a existência prévia de uma autoridade espacial com conhecimento e meios para proceder aos licenciamentos.

Temos portanto, nos Açores, dois Blocos de Esquerda: o que a nível regional não renega o seu ADN e toma posições muito firmes sobre o assunto; e o patético núcleo de Santa Maria, tomado de assalto pelos testas-de-ferro do lóbi espacial. Enquanto um dá corpo às legítimas preocupações dos açorianos em relação a este tema, o outro serve de guarda avançada aos interesses que preparam a sua OPA sobre Santa Maria. Qual deles, afinal, é o verdadeiro Bloco de Esquerda? Irão os responsáveis regionais do partido continuar a permitir que alguns cucos arrivistas choquem os seus ovos no ninho mariense? Aguarda-se com interesse as cenas dos próximos capítulos.

Enquanto isso, mesmo sem enquadramento legal ou regulamento que credibilize um estudo de impacto ambiental, o insano projecto Malbusca lá vai tentando avançar com calçadeira de tipo colonial, à pala da sonegação da informação e em total desrespeito pela opinião dos marienses e açorianos em geral. A audição parlamentar do Bloco de Esquerda ao Secretário Regional da Ciência e Tecnologia, Gui Meneses, no passado dia 18 de Dezembro, pôs a nu o que já se temia: as luminárias do Governo Regional pretendem atribuir a competência dos estudos de impacto ambiental às próprias empresas interessadas (!), limitando-se depois a validá-los, via Direcção Regional do Ambiente.

Alguém já perguntou aos habitantes de Santa Maria se desejam hipotecar o futuro da sua terra, trocando-o por 30 ou 40 empregos, tudo para que certos pássaros de arribação realizem o sonho de encher as algibeiras à custa de uma ilha cem por cento espacial?

Um pensamento sobre “Cucos e outros passarões

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