A dissipação do “Centro do Ar”

Foi este sábado, pelas 12h00, que pudemos ouvir na Antena 1 Açores o programa de debate bem conhecido dos açorianos Frente-a-Frente, desta vez dedicado ao AIR Center, ou, devemos dizer antes, AIR CentRE.

Simultaneamente, temos na imprensa regional o artigo de opinião de Nuno Melo Alves, também presente no painel do programa acima, sobre o mesmo assunto, no rescaldo do anúncio de Manuel Heitor, do início de atividade do Air Centre “nos próximos meses”. De facto, é surpreendente (e embaraçoso) o resultado desta heitorice. Vejamos o que se retira da edição online do Diário dos Açores do dia 17 de Janeiro:

A Fundação da Ciência para a Tecnologia apoiará, através de um contrato programa, a colocação de seis investigadores no projecto, sendo os restantes assegurados pelo Governo Regional dos Açores.

Segundo anunciou o governante este núcleo de investigadores, “sobretudo orientado para a observação da terra”, contará com a colaboração da Universidade dos Açores e do projecto Terceira Tech Island, que prevê a instalação na ilha Terceira de empresas ligadas à programação e às novas tecnologias.

Ora ouvindo o programa da Antena 1 Açores e lendo o artigo de opinião de Nuno Melo Alves, sobre as expectativas geradas em torno deste projeto, no âmbito do PREIT (Programa de Revitalização Económica da Ilha Terceira) e os seus resultados concretos até agora, de facto, a expressão a montanha pariu um rato nem faz jus a este processo.

Em Maio de 2018 anunciava o Açoriano Oriental:

O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior português, Manuel Heitor, disse que até novembro o Centro de Investigação Internacional do Atlântico (AIR Center) deverá avançar para projetos e iniciativas concretas a implementar gradualmente.

Em Janeiro de 2019, dois meses depois do deadline referido por Manuel Heitor, vemos que “os projetos e iniciativas concretas” são a criação de uma estrutura liderada por um canarinho e composta por 6 bolseiros da FCT e 3 ou 4 gatos-pingados subsidiados pelo Governo Regional (possivelmente no âmbito de um dos seus programas ocupacionais). Vão pelo menos ficar bem aconchegados na Casa da Roda, onde nem espaço haverá para uma secretária para cada um.

Diz também o mesmo artigo do Açoriano Oriental de Maio:

(…) o programa científico do AIR Center, assente em seis linhas: recursos marinhos e biodiversidade, oceano limpo e saudável, integração de sistemas do espaço exterior às profundidades oceânicas, mitigação e adaptação às alterações climáticas, sistemas sustentáveis de energia e ciência dos dados, inteligência artificial e sistemas de aprendizagem para problemas de clima, dinâmica atmosférica e oceânica.

Pegando então nesse programa tão específico e ambicioso, é muito interessante a resposta de Manuel Heitor aquando da sua visita à Terceira sobre o que vão esses investigadores estudar: “a Terra”. Fica patente, pelo desinteresse agora demonstrado pela governo da República relativamente ao Air Centre que este projeto constitui apenas mais uma ilusão de investimento sério e sustentável para a Região e para a Terceira em particular.

Estando mais que anunciado o estado moribundo do Air Centre, aguardemos por novidades do género relativamente ao projeto do porto espacial em Malbusca. A Lei do Espaço está na gaveta, não estando prevista a sua discussão na AR e publicação em Diário da República. Estamos já em plena campanha eleitoral, com a oposição a cerrar fileiras em torno da luta que se avizinha: com tanta luta laboral em agenda, diversos projetos anunciados em que se pretende atropelar a necessidade do estudo de impacte ambiental, estará o Governo, em ano de eleições, disposto a prosseguir nesta contenda fantasiosa de entrar na corrida ao Espaço?

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