O pior inimigo de Santa Maria

O pior inimigo de Santa Maria é, neste momento, a saudade venenosa do seu passado. Todos nós, em teoria, ambicionamos o melhor para esta terra – um desenvolvimento sustentado, capaz de preservar a sua essência e garantir, ao mesmo tempo, o bem-estar dos seus habitantes. O problema reside na sombra que os tempos gloriosos do Aeroporto ainda projectam sobre o futuro da ilha. É como se este território, tão pequeno e tão frágil, tivesse constante necessidade de se rever na contra-luz de um espelho deformante, que lhe devolve uma imagem desfocada e distorcida de si próprio.

Santa Maria está sempre a colocar-se em bicos de pés, para parecer maior no retrato da família açoriana – e essa fragilidade psicológica e social torna-a presa fácil para arrivismos, aventuras megalómanas e golpes do baú que noutro sítio jamais vingariam. É por isso que a ilha, com a sua sólida tradição de elefantes brancos, a sua nostalgia do passado e a sua baixa auto-estima, surge tão frequentemente, no horizonte dos aventureiros sem escrúpulos, como um belo sítio para se ganhar dinheiro à custa da ingenuidade dos seus habitantes. O mais recente exemplo dessa venda de ilusões a pataco é, como se sabe, o criminoso projecto para a construção de um porto espacial em Malbusca.

Tudo tem sido feito, de modo insidioso e calculado, para vender aos marienses a ideia de que a sua terra tem perdido habitantes, dinamismo económico e empregos, vivendo em contraciclo da realidade açoriana desde que o aeroporto entrou em decadência. A solução, para estes arautos da “modernidade”, passaria pela transformação deste pedaço de chão numa coutada reservada a foguetões & negócios afins (a tal ilha “100% espacial”, do iluminado ministro Manuel Heitor). Convém, no entanto, que analisemos os enunciados deste discurso antes de nos dispormos a comer gato por lebre. Estará Santa Maria assim tão mal, tão deslocada do que se passa no resto dos Açores como nos querem fazer crer? Os factos apontam para uma realidade bem diferente.

Os dados estatísticos que interessam omitir

É errada, por exemplo, a ideia de que a ilha tem uma população maioritariamente envelhecida, quando comparada com o restante arquipélago. Senão vejamos os dados de 2018, fornecidos pelos insuspeitos PORDATA e SREA

  • Jovens, com menos de 15 anos, no total da população residente, por ilhas: Santa Maria (15%) surge em segundo lugar, ex aequo com a Terceira, e logo atrás de S. Miguel.
  • Idosos, com 65 anos ou mais, no total da população residente, por ilhas: Santa Maria é a segunda ilha com menos idosos (13%), atrás de São Miguel e bem à frente da Terceira.
  • Índice de envelhecimento, por ilhas (idosos por 100 jovens): mais uma vez Santa Maria é a segunda ilha que regista menor envelhecimento (19%), sendo apenas ultrapassada por São Miguel.
  • Índice de dependência de idosos, por ilhas (idosos por 1000 pessoas com idade entre os 15 e os 64 anos): Santa Maria é a segunda ilha dos Açores com menos idosos dependentes.
  • Saldo natural, por ilhas (diferença entre o total de nascimentos e o total de óbitos: Santa Maria é uma das duas únicas ilhas açorianas que regista um saldo natural positivo.

A conclusão a retirar é óbvia: apesar de haver motivos para preocupação, a nossa ilha está longe de passar por um inverno demográfico. De facto, os indicadores estatísticos apontam para uma realidade populacional privilegiada, no contexto açoriano, que não se coaduna com as lamentações constantemente ouvidas. Mas – dirão esses profissionais do pessimismo – a economia está estagnada, os salários são baixos e não há empregos para os jovens. Mais uma vez, os dados desmentem algumas das premissas em que assenta um tal discurso. Santa Maria é a ilha dos Açores com maior poder de compra per capita (muito à custa da NAV, é certo; mas, em vez de ser desvalorizado, esse facto deve ser visto como uma vantagem comparativa), e a economia dá sinais de crescente vitalidade, alavancada sobretudo no turismo (transportes aéreos em curva ascendente desde 2014; rendimento gerado pela hotelaria e restauração a crescer de €785.804 em 2015 para €1.295.72 em 2017; época alta a passar gradualmente de três para cinco meses).

O discurso Calimero

Por que razão, então, há tanta gente a insistir num “discurso Calimero”, de ilha enjeitada e incapaz de se fazer à vida sozinha? Por que motivo esta terra estende a mão a todos os arrivistas, cai em qualquer conto do vigário e está sempre à espera de uma solução milagrosa para o seu futuro? Penso, como já disse, que isso se deve à influência perniciosa que a memória do Aeroporto exerce em muitos marienses, enviesando o seu olhar e distorcendo a imagem mental que têm da ilha. Os tempos em que Santa Maria era a porta de saída dos Açores e se posicionava como escala privilegiada nas viagens aéreas entre o velho e o novo mundo (essas três gloriosas décadas em que houve a ilusão de habitar no centro dos acontecimentos e a ilha fervilhou de gente e negócios) nunca mais vão voltar. Foram fruto de circunstâncias históricas irrepetíveis e não será agora o pesadelo espacial da Malbusca, com os seus trinta miseráveis empregos, a ressuscitar o cadáver.

Assim sendo, sobra a Santa Maria enfrentar a verdade; olhar de frente o espelho e, sem se colocar em bicos de pés nem inchar, como o sapo que queria comer a lua, ver-se como realmente é: uma ilha pequena, sem escala para projectos megalómanos, mas com todas as potencialidades para assegurar um presente digno e um futuro sustentável a todos os seus habitantes. Santa Maria, apesar dos seus problemas estruturais, está viva e recomenda-se. Não precisa de balões de oxigénio espacial nem de vendedores de banha da cobra para encontrar o seu caminho. O que realmente precisa é de estar em paz com o seu passado recente e encerrar definitivamente essa memória na gaveta da História.

Ilha de Santa Maria – Ascensão e queda da pequena América – reportagem RR

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