Prorrogando ad aeternum

Em Novembro de 2018, soubemos pela imprensa que teriam havido 14 concorrentes interessados em ter uma base espacial nos Açores – mais do triplo do que o Governo estava à espera. O anúncio foi feito pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) seis dias depois de ter terminado o prazo para empresas e entidades submeterem propostas no âmbito de um concurso público internacional aberto em Setembro – o Programa Internacional de Lançamento de Satélites dos Açores.

Afinal, esta ideia não seria assim tão descabida, o porto espacial de Santa Maria, no lugar de Malbusca, era viável economicamente fazendo prova disso a quantidade e diversidade de entidades interessadas.

Em Março deste ano, no seio da criação da Agência Espacial Portuguesa, a Portugal Space, liderada pela Chiara Manfletti-pessoa, que nada tem a ver com a Chiara Manfletti assessora do director geral da ESA, Johann-Dietrich Wörner, (ver Conflito de Interesses), foi anunciada a abertura do concurso público, formalizando assim a 2ª fase do concurso internacional que havia sido iniciado em Setembro do ano passado.

De prorrogação em prorrogação

Depois do anúncio de procedimento nº3074/2019 publicado a 26 de Março de 2019 com os detalhes do concurso público, logo a 10 de Abril, saiu a primeira prorrogação do mesmo – Aviso de prorrogação de prazo n.º 487/2019 , chutando para o fim de Maio o prazo para apresentação de propostas.

Ontem, dia 24 de Maio, foi publicado um novo aviso de prorrogação, desta vez identificado como Aviso de prorrogação de prazo n.º 739/2019. Está a ir de vento em popa! Esperemos por Julho para ver se teremos direito a mais uma prorrogação para prolongar expectativas e assim continuar a divulgar/financiar a indústria aeroespacial portuguesa, alimentando aquele que parece ser o verdadeiro intuito deste projeto.

A falta de €€€€

O anúncio do encontro entre o MCTES e a AirbusSpace no dia 21 de Maio de 2019

Não é certamente um acaso que o anúncio de prorrogação de apresentação de propostas tenha sido precedido de um encontro promovido pelo MCTES entre representantes da indústria aeroespacial portuguesa e a Airbus Space (sem a presença de qualquer entidade do Governo Regional ou de Luís Santos). Espremidos os 14 interessados inicialmente, sobraram dois consórcios interessados (um com 6 empresas, outro com 3) no porto espacial de Malbusca com um enorme problema para resolver – a falta de fundos para concretizar e manter um projeto desta envergadura.

Voltamos de novo à Airbus, a empresa que manifestou interesse em 2017 em consórcio com a Safran na construção de uma base espacial, conforme confirmado na imprensa regional, tendo reunido-se inclusivamente com entidades locais e regionais na ilha de Santa Maria. A conclusão foi unânime, a ilha não teria dimensão para suportar as pretensões do projeto da Airbus. À luz da fragilidade económica dos consórcios interessados, talvez o projeto da Airbus já não pareça assim tão desmedido.

As más notícias da Tekever

Recentemente, foi também notícia a suspensão do CEO e co-fundador Pedro Sinogas da Tekever pelo alegado desvio de verbas, incluindo de fundos europeus para projetos de investigação:

E foi quando obtiveram esse acesso que os dois sócios minoritários, cada um com 12% da empresa, tiveram um primeiro vislumbre do rol de transferências de milhares, dezenas de milhar, centenas de milhar ou mesmo milhões de euros para empresas do mesmo grupo, destinatários desconhecidos, férias de luxo para a família, atividades de mergulho, a compra de um carro Tesla de 199 mil euros, várias obras de arte, manutenção de barcos, contas do próprio CEO com uma variação pouco consentânea com a de um salário – tudo numa lista que começa em 2013 e termina em 2018 e que serviu de base para o Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa suspender Pedro Sinogas da liderança da Tekever, a 27 de setembro de 2018.

Exame Informática: Tekever: Tribunal suspende CEO. Sócios alegam desvio de 10 milhões

A estrela da indústria aeroespacial/aeronáutica portuguesa, a mesma que, supostamente, colaborará com a China na construção de microssatélites (STARLab) e participa nos consórcios interessados no porto espacial, é assim falada pelos piores motivos, havendo no entanto já desde algum tempo, rumores de que seria não mais que um sorvedouro de fundos europeus, envolvida em constantes projetos de investigação, sem apresentação de produtos finais no mercado.

A tutela de Manuel Heitor é marcada pelo forte investimento no Espaço (negligenciando em grande medida a tutela do Ensino Superior), desmultiplicando-se desde o início do seu mandato em reuniões, acordos e encontros por todo o Mundo na tentativa de colocar Portugal neste mercado. Talvez em breve se venha a saber a motivação por detrás deste esforço hercúleo.

O projeto do porto espacial em Santa Maria soma e segue, com a robustez de um castelo de cartas.

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