Plataformas móveis de lançamento

No passado dia 5 de Junho, a China estabeleceu um marco importante no seu programa espacial ao conseguir, pela primeira vez, lançar um foguetão de cerca de 21 metros e 58 toneladas (Long March 11) a partir de uma plataforma móvel em pleno Mar Amarelo, a mais de 100 km da costa, colocando sete satélites em órbita a 565km da Terra. Este feito foi noticiado brevemente pelo Observador, sendo este artigo baseado na extensa informação providenciada pelo SpaceFlightNow disponível neste link.

O feito não é, contudo, inédito. A empresa Sea Launch, fundada em 1995 com parcerias norte-americanas, russas e ucranianas, lançou 36 missões de 1999 a 2014. O mercado ditou a falência da Sea Launch, que acabou por ser adquirida em 2016 por uma holding russa, a S7 Group.

Localização do lançamento a partir de uma plataforma móvel no Mar Amarelo, China

Todos os spaceports em território chinês estão localizados longe da costa, o que significa que os destroços do lançamento caiem em terra, pondo em risco a população numa vasta área. As autoridades chinesas, antecipando um aumento da densidade populacional, enveredam por este tipo de lançamento para minimizar os riscos para com as pessoas, mas também para aumentar o leque de órbitas alcançáveis ao mínimo custo possível, usando esta plataforma móvel como uma espécie de “ilha móvel”.

As potenciais repercussões deste feito para a posição “privilegiada” de Santa Maria no mercado proporcionado pelo New Space são tão claras que nos escusamos a constatar o óbvio. Haverá, obviamente, quem mesmo assim, numa deliciosa ironia, tente negar esta evidência da Ciência e Tecnologia.

Ainda sobre os lançamentos horizontais

Numa semana de precipitados vaticínios sobre o futuro dos lançamentos horizontais a partir de um avião, a resposta chega pela UK Space Agency, homóloga britânica da Portugal Space, que anunciou entusiasticamente o reforço no investimento no spaceport de Cornwall, em conjunto com o Cornwall Council, num total de 20 milhões de libras. A Virgin Orbit (não confundir com a Virgin Galactic, que se dedica a viagens tripuladas ao Espaço, nomeadamente, explorando a vertente do turismo espacial) vê-se assim legitimada face aos anunciados avanços no lançamento do LauncherOne a bordo de um Boeing 747 adaptado para o efeito.


Ainda sobre a Virgin Orbit e o seu incómodo sucesso na tecnologia para lançamento horizontal, a empresa de Richard Branson anunciou também o estabelecimento de um memorando de entendimento com a ANA Holdings, detentora da All Nippon Airways (ANA) para usar a tecnologia do LauncherOne em território japonês:

“We are proud to partner with fellow companies like Virgin Orbit that are also on the cutting edge of innovation,” said Toyoyuki Nagamine, Senior Executive Vice President of ANA HD. “Space is open for everyone going forward, and Virgin Orbit represents a new era of space capabilities. 

Virgin Orbit partners with ANA Holdings to launch small satellites from Japan, 06/07/2019

O Japão junta-se assim a uma data de locais que já manifestaram interesse e/ou celebraram acordos com a Virgin Orbit, como sendo:

  • Kennedy Space Center, Florida, EUA
  • Andersen Air Force Base, ilha de Guam
  • Spaceport Cornwall, Reino Unido
  • Taranto-Grottaglie Airport, em Itália.

Orbex Space de fora com o Prime escondido

Recorde-se que já havia sido, em Julho de 2018, anunciado um investimento de quase 20 milhões de euros na solução de lançamento vertical em A’Mhoine, na Escócia, implementada pelo consórcio composto pela Lockheed Martin e a Orbex, a tal do foguetão “verde”, que funciona a metano e até cheira a poejo – o Prime. Nessa altura, a UKSA investiu valores idênticos na solução A’Mhoine (lançamentos verticais – Prime da Orbex) e em Cornwall (lançamentos horizontais – LauncherOne da Virgin Orbit).

O anunciado reforço em Cornwall justifica-se também por uma Orbex Space que não ata nem desata que já desde 8 de Fevereiro que não dá notícias sobre o seu rebento. Sempre existiu uma certa descrença neste projecto, e nem a própria Orbex disfarça o desconforto actual com a toada cada vez mais céptica face à ausência de avanços palpáveis.

Tweet Orbex Space
Printscreen do tweet da Orbex Space (a conta SantaEspaco foi por eles bloqueada)

A omissão de Gui Menezes

Por falar em descrença, Gui Menezes emitiu um comunicado pelo GaCS de balanço à sua comparência em debate de urgência convocado pelo BE. O Secretário Regional assegura que há bons exemplos de cooperação entre os governos dos Açores e da República em ciência e tecnologia, dando variados exemplos como o AIRCentre, a RAEGE, a Agência Espacial Portuguesa, mas omite o projeto do porto espacial de Malbusca. Sinal dos tempos?

Gui Menezes assegura que há bons exemplos de cooperação entre os governos dos Açores e da República em ciência e tecnologia – 04 de Junho de 2019

Um pensamento sobre “Plataformas móveis de lançamento

  1. Paulo Ramalho

    Todo este pesadelo está destinado a passar e o spaceport da Malbusca terá em breve o destino que merece – descansar no baú mariense dos contos do vigário. Mas há uma coisa que vai custar mais a esquecer: o modo expedito como alguns se dispuseram a vender a sua ilha em troca de cascas de tremoço espacial.

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