A cimeira do nem-nem (1/2)

Como amplamente divulgado e ansiado em Santa Maria, decorreu nos dias 21 e 22 de Junho a New Space Atlantic Summit, evento anunciado no final de Março e que muitas alterações ao seu programa sofreu, conforme foi demonstrado na publicação anterior. Este evento foi, por sua vez (até hoje, pelo menos), misteriosamente ignorado pelo resto do País em geral, no arquipélago açoriano em particular. Embora tenham sido propagandeados mais de 100 participantes, e Manuel Heitor tenha falado em 95 inscritos, não ultrapassou os 80, dos quais cerca de uma dezena eram marienses.

Muitos notáveis marienses estiveram presentes, uns como convidados e oradores, outros como curiosos, mas todos desejosos de saber ao certo (e finalmente!) os planos de Manuel Heitor para a ilha que ambiciona tornar 100% espacial. Segue-se o relato da cimeira que demonstrou aos presentes como o projeto do porto espacial de Malbusca está em estado de nem-nem comprometendo, já há quase 3 anos, qualquer plano estratégico de desenvolvimento económico para a ilha de Santa Maria.

Nota: Considerando a quantidade de informação recolhida no evento e o apelo do extenso areal que aconchega a Baía de São Lourenço, a análise à cimeira será dividida em duas publicações distintas.


21 de Junho (6ª feira)

Prelúdio: A escolha de Vasco Cordeiro

Vasco Cordeiro, presidente do Governo Regional dos Açores, político açoriano capaz de conciliar no mesmo discurso as expressões “desenvolvimento sustentável” e “porto espacial”, era anunciado como a figura importante que abriria o evento.

Anúncio da presença de Vasco Cordeiro, confirmada no início da semana no envio do programa actualizado

Até 5ª feira, véspera do evento, era esse o compromisso que constava na agenda do Presidente. Quem no entanto assumiu essa responsabilidade foi Gui Menezes, cuja presença não era prevista, e que justificou a troca apenas dizendo que Vasco Cordeiro não pôde comparecer. Na realidade, Vasco Cordeiro optou sim, à última hora, por inaugurar o XVIII Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia.

A agenda de Vasco Cordeiro para o dia 21, primeiro dia da cimeira, disponível neste link.

Compreensível – que atire a primeira pedra quem não optaria por afagar uma vaca-leiteira ao invés de sofrer os devaneios de ficção científica de Manuel Heitor e sus muchachos? Vasco Cordeiro não parece estar disponível para continuar a fingir que este assunto do porto espacial é sério, e escolheu, inteligentemente, o palco que lhe traria maior exposição popular e, consequentemente, mais votos em 2020.

Notícia sobre o discurso de Vasco Cordeiro no concurso de vacas leiteiras aqui

Government-Business Dialogue

Manuel Heitor

O grande entusiasta e promotor da indústria aeroespacial abordou primeiramente a criação da Portugal Space e a escolha de Chiara Manfletti para o cargo de presidente, confessando que a sua opção foi criticada pelos seus colegas ministeriais por a mesma ser estrangeira.

Sobre o conceito que se pretende implementar em Santa Maria, falou dos micro-lançadores low-cost e da ideia de um porto espacial aberto, algo que já se sabia pela própria especificação do concurso público. Apesar de uma estreita colaboração com a ESA, referiu a necessidade de olhar para outras geografias (relembremos os contactos com a China).

Ressalvou que existem cerca de 95 projetos de micro-lançadores em curso, bem como 5 spaceports em proposta, sendo que naturalmente não haverá mercado para tantos.

Etienne Schneider – min. Economia Luxemburgo

Abriu a sua intervenção em tom queixoso pelo clima e pelo tempo que demorou a chegar a Santa Maria (parece que clima e acessibilidades que dizem impossibilitar o sucesso do turismo na Ilha, também são insuficientes para eventos do Espaço). Relatou a sua experiência na criação da Agência Espacial do Luxemburgo (criado em Setembro de 2018, ver site) e das dificuldades em persuadir os seus colegas de Governo da importância deste sector. Neste ponto, Manuel Heitor acenou identificando-se com a experiência do seu congénere e confirmando a sua solidão nesta epopeia.

Referiu também a pouca envolvência da Comissão Europeia no mercado criado pelo New Space e a importância que terá o novo comissário europeu e sua perspectiva sobre o Espaço.

Jan Wörner – diretor ESA

O ainda patrão de Chiara Manfletti abordou a dificuldade que existe em fazer com que os países-membros aumentem o seu orçamento para o sector do Espaço. (Não foi o caso de Portugal, que, com Manuel Heitor, aumentou de 14 para 19 milhões a sua quotização. Privilégios de um país rico!). A ESA irá na próxima reunião ministerial, em Novembro, tentar que os estados-membro aumentem a sua contribuição para ESA (facto que coloca Chiara, na sua dupla-função, em conflito de interesses como noticiado).

Foi também mencionada a mudança de paradigma dentro da ESA na gestão do seu orçamento ao deixar gradualmente de subsidiar a indústria, sendo esta responsável por encontrar o seu próprio financiamento.

Restantes intervenientes

Os restantes intervenientes (Miguel Mora da Deimos, Holger Burkhardt da DLR, Miguel Molina da GMV, Ricardo Conde da Edisoft e Tiago Carvalho da Vision Space), representantes da indústria, argumentaram cada um de forma diferente, a necessidade da manutenção da contribuição governamental para o sector do Espaço.


É muito interessante que o New Space represente a possibilidade do acesso privado ao Espaço, e que, por sua vez, os privados o queiram fazer mantendo o conforto da mama subsidiária. A questão que se impõe é: quem deve desenvolver o mercado: a indústria ou os governos? Com grande probabilidade, essa questão será respondida no Space19+, reunião ministerial da ESA a ter lugar nos dias 27 e 28 de Novembro deste ano em Sevilha.

Regulatory Framework in Portugal

João Cadete de Matos – presidente ANACOM

João Cadete de Matos não excedeu os seus 15 minutos de fama para abordar as suas recentes novas funções como presidente de uma autoridade espacial – a ANACOM.

Falou de uma inovadora estrutura regulamentar, muito competitiva pela sua grande flexibilidade para a indústria e ao mesmo tempo rigorosa pela necessidade de redução de impactos negativos. Fantástico!

Fez questão de mencionar a estreita cooperação da autoridade espacial (ANACOM) com as Autonomias respeitando as suas competências locais. Ora isso dá pano para mangas, que é como quem diz, uma publicação dedicada neste blog, agora que está oficialmente em consulta pública o projeto de regulamento relativo ao acesso e exercício de atividades espaciais. Livrai-nos das tentações de São Lourenço e Praia Formosa e lá chegaremos.


Em breve, a análise ao bem mais sumarento 2º dia da New Space Atlantic Summit.

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