A cimeira do nem-nem (2/2)

O prato principal do New Space Atlantic Summit seria servido no dia 22, sábado, com a sessão sobre mercados emergentes no Espaço e o caso particular do Azores ISLP, ou seja, o concurso para lançamentos a partir de Malbusca, logo às 09h30. O dia começou com umas nesgas de sol e menos vento, para gáudio dos presentes que se deliciaram ao contemplar a vista a partir da Biblioteca Municipal de Vila do Porto.

22 de Junho (sábado)

A abertura por Manuel Heitor

O D. Quixote que vê no spaceport de Malbusca a concretização das suas fantasias heróicas, abriu a cimeira logo clarificando que, a articulação com a ESA não é impeditiva de entendimentos políticos com outros países. Faz também referência a potenciais localizações (sim, plural) do spaceport do Santa Maria.

Segundo Manuel Heitor, a articulação com a indústria tem sido a chave do sucesso do Azores ISLP, por se ter optado por um spaceport aberto, com diversos consórcios em competição, num modelo de experimentação para o acesso ao Espaço.

Antecipou um grande crescimento no mercados dos minissatélites, havendo à partida uma maior necessidade de lançamentos que pode ser preenchido pelo mercado dos micro-lançadores – o desafio é baixar o rácio €/kg de carga útil (payload), ou seja, conseguir colocar a maior carga (satélites) no Espaço, pelo mínimo valor possível.

Termina enfatizando que as tecnologias usadas têm que ser amigas do ambiente e lança esse desafio ao painel da sessão que se segue. O cúmulo da incoerência vindo do homem que promove um concurso para lançamento de foguetões a partir de uma área protegida numa ilha dos Açores.

Nota: Foi uma pena que o contingente do PS Santa Maria não tivesse presente durante a sessão sobre o Azores ISLP para esclarecer as suas dúvidas e anseios acerca do spaceport, ter-se-ia poupado a intervenção extemporânea e embaraçosa que nem resposta obteve por parte do painel.

Emerging markets and the case for the Azores ISLP

Roberto Mancini (Avio)

Fala no mercado da observação da terra e da oportunidade de negócio que constituem as constelações de satélites. A ideia é conceber sistemas para lançar payloads entre os 100 e os 200 kg. Contudo, não existindo ainda mercado para os micro-lançadores, é impossível prever quantos lançamentos serão feitos.

Catriona Francis (Orbex)

Refere a tecnologia verde que a Orbex quer implementar, nomeadamente usando como combustível o BioLPG. É a única representante das empresas que assim “responde” ao desafio de Manuel Heitor. Nota: foi com base no lançador (Prime) desta empresa que se considerou ambientalmente viável lançar a partir de Malbusca.

Eleazar González (PLD Space)

Refere que é difícil manter uma cadência regular de lançamentos. É difícil para uma empresa desenvolver um lançador pois é necessário muito investimento. O conceito de “low-cost” não é adequado à indústria espacial, pelo que a PLD Space recusa adoptá-lo. Usualmente as empresas são criadas em torno do desenvolvimento de um satélite, precisando, depois de um lançador. Não é possível para uma empresa correr sempre atrás das tecnologias mais recentes, na medida em que estão a prestar um serviço e isso tem de ser estabilizado.

Alain Pajonk (RFA)

Caracteriza o mercado como sendo diversificado e definido pelos custos. Considera que low-cost é possível, mas só a partir de 20 lançamentos por ano, sendo que 10 é o mínimo para considerar o negócio estável.

Nuno Ávila (Elecnor Deimos)

O representante da Deimos Engenharia, empresa da Elecnor Deimos (Espanha) que deu o parecer positivo aos lançamentos a partir de Malbusca, defendeu (naturalmente) que o crescimento dos smallsats iria ser satisfeito pelos micro-lançadores pela sua maior flexibilidade. O grande argumento em favor desta tecnologia, é a maior celeridade com que se consegue colocar os satélites em órbita (embora continue a haver o problema €/Kg). Defende que o spaceport deve ser compatível com diferentes lançadores. Estima 3 a 4 lançamentos por ano durante 5 a 7 anos e queixa-se que tem que haver uma mudança de mentalidade no desenvolvimento da tecnologia – o erro é necessário no processo e a Europa (ao contrário dos EUA) não pensa assim.

Davide Nicolini (ESA)

Explica que a ESA procura garantir o acesso de pequenos lançadores e facilitar que pequenas empresas desenvolvam as suas próprias soluções. Diz já existirem micro-lançadores na Europa e confirma a existência de mercado. O conceito de “comercial” é fundamental e deve ser atingido pela inovação e tecnologia.

Tiago Pardal (Omnidea)

Reitera que o mercado existe e tem potencial e que o objetivo é fazer um lançamento por mês. A Rocket Lab (Nova Zelândia) tem actualmente o único micro-lançador em funcionamento, mas outros irão aparecer.Valoriza a questão do preço por quilo do lançamento e espera que com a produção em massa esse valor possa diminuir para se tornar mais atrativo.


Chiara Manfletti introduz entretanto a ideia de que o small launch não é a atividade espacial mais lucrativa. Holger Burkhardt, DLR, comentou em relação aos erros que é preciso ver que os satélites criam space debris e nesse sentido responde a Nuno Ávila dizendo que errar não é uma opção, a menos que estejamos a falar da fase de desenvolvimento.


Porquê um spaceport nos Açores?

Tiago Pardal (Omnidea)

A questão geográfica, nomeadamente o facto de ter mais de 1000km livres de obstáculos (território) a Sul. Vê Kourou (Guiana Francesa) como únicos spaceports na Europa

Nuno Ávila (Elecnor Deimos)

Num momento de puro lirismo, refere que a pergunta deve ser feita ao contrário: como irão os Açores beneficiar: gerar-se-á negócio e inovação. Contraria-se o declínio populacional e cria-se emprego qualificado. É inspirador para as novas gerações (e muito lucrativo para a sua empresa).

Alain Pajonk (OHB):

Refere a vantagem de lançar em território europeu, quer no caso dos Açores quer de Kourou e a inexistência de tráfego aéreo. O forte compromisso governamental gera confiança. A existência de outras “facilities” (instalações da ESA em Santa Maria).

Eleazar González (PLD Space)

O ângulo de lançamento, mesmo não sendo possível para Este por causa de Portugal and Spain. O apoio governamental é essencial para as empresas que se queiram estabelecer. A ilha é muito pequena mas todas as instalações terrestres podem ser adaptadas aos micro-lançadores, tudo poderá ser desenhado em função da ilha

Catriona Francis (Orbex)

A escala do local é ideal pela gama de direções para lançar e o espaço aéreo está livre de tráfego. Garante flexibilidade para as diferentes operações da empresa. Garantia de acesso permite à empresa capacidade de crescer, porque existe um “modest spaceport” adequado às suas necessidades. A questão da regulamentação é muito importante para a empresa, assim como a capacidade de construção do spaceport.


Outras ideias referidas: a necessidade de se cumprir o timing: 2020-2021 será o primeiro lançamento que o mercado considera. Os regulamentos devem ser simples e ausentes de burocracia. Pediu-se que os governos continuassem a colaborar com a indústria, tal como até aqui. Olhar para outras possibilidades técnicas – plataformas no mar, lançamentos horizontais, etc. – e a Malbusca tem de ser enquadrada neste contexto mais vasto. O mercado irá desenvolver-se muito mais rapidamente do que a capacidade de lançamentos na Malbusca. E no futuro não haverá monopólios em matéria de lançamentos…


Gui Menezes (Séc. Regional)

Qual será o futuro dos lançamentos horizontais e a capacidade de os fazer no aeroporto de Santa Maria?

Resposta do painel

Sim, haverá múltiplos spaceports comerciais. É essencial que venha a haver competição neste setor e que se amplie a capacidade de lançamentos. O dos Açores será apenas mais um spaceport. Os lançamentos horizontais irão igualmente provocar competição. Considerou-se que os verticais podem ser mais escaláveis, podendo não haver competição direta com os horizontais, que são menos eficazes em termos de massa. Os horizontais têm o perigo de serem pilotados, pelo que as questões de segurança se põem de outra forma (ideia de Nuno Ávila). Só o tempo dirá como se desenvolverão as duas tecnologias, sendo que poderá haver uma afirmação maior dos horizontais. No entanto, não adianta ficar apenas atento a um problema tecnológico, porque se trata de questões que se vão resolvendo ao longo do tempo.


New horizons for earth observation

Salientar a conferência de Joaquín Brito, director-executivo do AIR Centre, fez uma apresentação sobre a entidade que lidera com enfoque para o ESA@Lab da Terceira, para incómodo da maioria dos marienses que só então se aperceberam que esse investimento será realizado na ilha Terceira.

Defendeu a ideia de que os políticos respondem às pressões das populações, pelo que a via é comunicar com as pessoas relativamente a todos os domínios tratados nesta cimeira.

Encerramento

Gui Menezes

Relatou o trabalho que o Governo Regional tem desenvolvido nos Açores com vista a aproximar os alunos da ciência e da tecnologia: clubes de robótica, CanSat, ensino de programação. Como a ilha de Santa Maria foi a primeira a ser descoberta pelos navegadores portugueses, poderá também ser a pioneira em domínios inteiramente inovadores, o que seria muito simbólico. No caso das regulações, assinalou que é necessário não complicar a vida às empresas, mas que terão também de ser feitos compromissos. Declarou estar completamente comprometido com o spaceport em Santa Maria, na medida em que o mesmo é tão importante para esta ilha, para os Açores e para Portugal. A posição dos Açores permitiu já que fossem pioneiros na aviação, ligações por cabos submarinos, etc. Este trabalho será para continuar. Agradecimentos  aos que trabalharam para esta cimeira.

COMENTÁRIOS DISPERSOS OUVIDOS EM CONTEXTOS INFORMAIS E VISITAS
  • Ideia de cluster espacial é excessiva e é irrealista pensar que se vai ocupar a ilha toda com este setor
  • Alguma confusão de alguns participantes acerca do procedimento concursal, não compreendendo exatamente em que fase se encontravam (pareceu haver um grupo de empresas “escolhidas” para concorrer, as quais estão a ser “conduzidas” de forma a conseguirem apresentar propostas);
  • Setor de controlo do porto espacial: algumas empresas interessadas nessa componente. Contudo, na visita de 22/06 à ESA, falou-se que irá ser construído pela Edisoft, naquele local, um centro de controle para o porto espacial da Malbusca ou para outros portos de outras regiões do mundo.
  • Incerteza dos concorrentes acerca de quem é o proprietário dos terrenos, localização e áreas exatas. Até agora não tiveram acesso à planta. Esta questão não está a ser clarificada aos concorrentes, e ao que parece o Governo Regional está a resolver…
  • O Governo Português não ganha nada com o porto espacial – apenas lucram as empresas que vencerem o concurso e operarem o porto
  • Durante a visita à RAEGE, quando confrontado com a questão sobre a área protegida onde se pretende construir, bem como à proteção da orla costeira, o guia explicou, de forma descontraída, que a forma de contornar os problemas ambientais inerentes à localização na Malbusca será declarar o projeto de interesse público.
  • Sensibilidade à paisagem: tanto nas instalações da Edisoft como em Malbusca, foi comentado “à boca pequena” e por várias pessoas que era uma pena estar a destruir estas paisagens…
  • Problema dos acessos a Malbusca – que contudo pode ser solucionado. As empresas têm a informação de que o Governo Reginal disporá de 6 milhões para pagar os acessos.
  • Visita a Malbusca: foi dito que o local escolhido é o pasto mais próximo do início do declive do monte da Vigia da Baleia. Quanto ao resto – área de implementação, perímetro de segurança, necessidades de evacuação, etc. etc. – tudo será em função das necessidades e características dos lançamentos.
  • Virgilio Azevedo do Expresso foi o jornalista de serviço ao evento, possivelmente viajando de novo a convite do MCTES. Aguarde-se pelo seu relato do evento na próxima edição do semanário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *