Parolice espacial

No passado dia 20 de Novembro, o Teatro Thalia foi o palco de uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos que juntou a astrobióloga Zita Martins, o físicos Carlos Fiolhais e João Magueijo e a vice-reitora da Universidade Nova de Lisboa Elvira Fortunato para debater «Do Espaço ao fundo dos oceanos», nos contextos mundial e nacional (ver aqui o programa completo).

João Magueijo – português de gema, físico de renome mundial há anos radicado em Londres onde lecciona enquanto professor catedrático no Imperial College – em 1999 abismou o mundo da Física ao desafiar um dos factos incontestáveis da Teoria da Relatividade Geral de Einstein com a sua Teoria da Velocidade da Luz Variável (VSL). O brilhante físico nacional, bem conhecido pela sua objectividade e frontalidade, a propósito das intenções de colonizar Marte tão delirantemente expostas por Michio Kaku ao minuto 11′ do vídeo completo do programa, deu o mote a este artigo ao classificá-las em comentário posterior de parolice espacial.

“Parolice espacial – devíamos procurar vida inteligente na Terra em vez de em Marte, não parece haver grandes evidências disso” – João Magueija

Mantendo em mente a soberba expressão “parolice espacial” de João Magueijo, avancemos para o que a Santa Maria diz respeito – o que se disse sobre o porto espacial de Malbusca no programa FronteirasXXI. Analisaremos depois as novidades decorrentes do primeiro dia do Conselho Ministerial da ESA a decorrer em Sevilha hoje e amanhã.

O teleporto de Santa Maria

Carlos Daniel, conhecido jornalista da RTP, introduz “uma infraestrutura importante construída na ilha de Santa Maria”, o teleporto de Santa Maria operado pela Edisoft.

Teleporto de Santa Maria e outras inovações tecnológicas em Portugal

Nessa peça, que depois a RTP Açores passou no seu espaço noticioso, a voz-off refere que a “Agência Espacial Portuguesa quer contratar 1000 trabalhadores especializados, dos quais parte irá para Santa Maria faltando apenas selecionar o consórcio”. Obviamente há uma má interpretação, a Portugal Space e o seu reduzido orçamento não têm capacidade para contratar 1000 trabalhadores (a ESA tem 2500), quer sim “que em 2030 a facturação deste sector no país cresça dos actuais 40 a 50 milhões de euros por ano para 500 milhões de euros em 2030, assim como proporcione a criação de 1000 novos empregos“, como consta da notícia do Público de hoje.

Carlos Fiolhais – a massa crítica que faz falta

Carlos Fiolhais sobre a estratégia para o Espaço do Governo Português

Carlos Daniel questiona Carlos Fiolhais – professor catedrático de Física na Universidade de Coimbra e conhecido comunicador de ciência – sobre o panorama da indústria espacial portuguesa contextualizando primeiro salientando a falta de investimento na ciência em Portugal face ao resto da UE, ao contrário do que se apregoa. “Estamos a iludir-nos, a pensar que com os níveis de financiamento actuais, Portugal vai entrar agora no Espaço rapidamente e em força”. Fala do surgimento da Agência Espacial Portuguesa como “vinda do nada“, não tendo havido qualquer debate na comunidade científica na estratégia seguida. “Vejo muitos foguetes a serem lançados (…) há até um atraso no lançamento dos foguetes, prometeram para 2021, e os consórcios já deviam ter sido escolhidos (…). Vão lá à ilha e vão ver tudo a derrapar, não vão conseguir.”

Carlos Fiolhais fala com propriedade da Ciência em Portugal, com um estatuto de pedra e cal na comunidade académica, e como alguém descomprometido que pode emitir livremente a sua opinião. A verdade é que há poucos (nenhuns?) académicos portugueses a dar a cara pelo porto espacial, porque será?


Conselho Ministerial da ESA 27-28 Novembro 2019

Está a decorrer desde hoje a tão aguardada reunião ministerial da ESA (motivo pelo qual Manuel Heitor foi surpreendentemente reconduzido no MCTES) transmitida em directo na ESA Web TV aqui. Na sequência do comunicado do Governo de hoje, soube-se que “Portugal assume, conjuntamente com França, a Presidência do Conselho Ministerial da ESA para os próximos 3 anos, 2020-2023” e também que “O Ministro Manuel Heitor apresentará em Sevilha a estratégia de Portugal em aumentar a contribuição nacional para a ESA em cerca de 20%, o que representa um investimento público de cerca de 250 milhões de euros na próxima década e até 2030“. Mais interessante são as notícias que vão surgindo na imprensa em função do que se vai ouvindo aqui e ali no contexto da definição da política de investimento da ESA em negociações por estes dias:

There has never been a better time to start a small space agency, MIT Technology Review

As intenções do Governo são retratadas de forma clara, a intenção é ter um spaceport a lançar foguetões com a mesma periodicidade que um pequeno aeroporto recebe aviões. Um pouco diferente do que nos têm vendido os Governo Regional e da República, não é?

Nota: Vale a pena ler, do mesmo autor, o artigo “A falling rocket booster just completely flattened a building in China” – Despite how easy it is to prevent, China continues to allow launch debris to rain down on rural towns and threaten people’s safety. Aconteceu no passado Sábado, dia 23 deste mês.

Parece uma coisa certa, mas analisando a fundo a informação que vem sendo disponibilizada, vemos que o problema de financiamento desta parolice espacial se mantém, não há investimento privado que o suporte obrigando Manuel Heitor a comparecer perante a ESA de mãos estendidas para tentar o seu último recurso.

Portugal propõe à ESA uma nova constelação de satélites para observação dos oceanos, Diário de Notícias

Manuel Heitor, em declarações ao DN antes da reunião de Sevilha que agora decorre, assume a intenção de vender à ESA a importância de ter um porto espacial para pequenos lançadores, tentando assim garantir o financiamento que não conseguiu obter nos múltiplos esforços que tem envidado nesse sentido.

An independent access to space from Europe

Contudo, como podemos ver no vídeo abaixo publicado há poucos dias no site da ESA, parece não haver intenção de investir quer em microlançadores quer em novos spaceports. O vídeo começa por mostrar imagens da construção de uma nova plataforma em Kourou, na Guiana Francesa, para albergar os lançamentos do Ariane6, com a capacidade de lançar satélites para diferentes órbitas durante a sua viagem com garantias de “deorbitação” por forma a não contribuir para a já situação insustentável de lixo orbital (space debris). De seguida, aborda a geração Vega e o novo projecto, o Vega EVO, com capacidade para maiores payloads (carga útil) e, por conseguinte, capaz de reduzir em muito o tão competitivo €/kg. É também mencionado o conhecido Space Rider (o tal que poderá vir a aterrar no Aeroporto de Santa Maria) que parece garantir continuidade de financiamento por parte da ESA.

O programa FLPP, que financiou a Orbex Space e da PLD Space no sentido de se desenvolverem microlançadores que pudessem vingar no auspicioso mercado de minissatélites, parece neste triénio (2020-2023) dedicar-se unicamente aos veículos Ariane6, Vega-C (e EVO) e Space Rider.

Unveiling technologies for future launch vehicles, página da ESA

O imperdível negócio dos microlançadores europeus (também pela grande competitividade dos EUA e China) parece ter levado um valente par de patins e consequentemente aniquilado o demand de mais spaceports – basta ver que nenhum dos “concorrentes” com Malbusca está a avançar. Mantenhamo-nos, no entanto, atentos às próximas notícias que se sucederão a esta Conferência Ministerial da ESA em Sevilha a decorrer.

Estamos na primeira fila a assistir ao princípio do fim. Sit back and enjoy the show.

Um pensamento sobre “Parolice espacial

  1. Paulo Ramalho

    A pergunta que se impõe, depois de tudo isto passar, é a seguinte: quem se chega à frente para pagar os danos na imagem de Santa Maria causados pela “parolice espacial…?

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