Cronologia

Ilha de Santa Maria a caminho de ter uma base espacial?

A 18 de Abril de 2017 sai no Público uma notícia que coloca Santa Maria como um “local bem posicionado para construir uma base espacial de onde partirão foguetões que coloquem em órbita da Terra pequenos satélites”. Caiu assim por terra a “bandeira” do reaproveitamento da Base das Lajes para este efeito e lançou-se a ilha de Santa Maria como o local mais viável, segundo o estudo da empresa Airbus.

A notícia de 22 de Abril de 2017 do Expresso tem no título uma expressa manifestação de auto-satisfação do ministro Manuel Heitor, no âmbito do encerramento da conferência que debateu a criação do AIR Center na Praia da Vitória. Revela também como funcionará o financiamento: “Contamos com financiamento público e privado, nacional e europeu, mas também norte-americano e certamente da América Latina, de África e de fundos de investimento“.

Relativamente à ilha de Santa Maria como forte candidata à construção de uma base espacial esclarece que é “um projeto que pode ser paralelo ao AIR Center, mas obviamente que não se faz uma base espacial de um dia para o outro, tem de ser estudada a sua viabilidade”.

Aborda-se também o interesse do consórcio Airbus Safron Launchers, que chegaria a concretizar o seu interesse numa reunião em Santa Maria com entidades locais e regionais: “A Airbus Safran Launches está interessada, a empresa alemã OHB, uma das maiores empresas espaciais da Europa, também, tal como a agência espacial indiana (ISRO) e a Academia de Ciências da China. Todas elas estiveram representadas na conferência e têm feito estudos.”

É também neste artigo que se assume que o porto espacial não é essencial para o sucesso e exequibilidade do AIR Center: “será certamente no futuro um projeto diferenciador do centro de investigação internacional, mas ficou claro que o arranque do AIR Center não será afetado por não haver base“. É um elemento diferenciador “que requer um grande detalhe técnico, de segurança e de financiamento“.

É também referido o interesse dos Estados Unidos revelando um player que depois se assumirá importante, a Universidade de Austin no Texas, que fez “um compromisso claro de que quer investir seriamente neste processo”. Sobre a escolha para a localização da sede do AIR CENTER, delega a tarefa no Governo Regional: “é uma decisão que cabe ao Governo Regional dos Açores, às autoridades locais, mas o importante é termos uma agenda de investigação científica com vários pólos, em rede” – a escolha recaiu na ilha Terceira.

Também na notícia do Público, pela mesma altura e sobre o mesmo tema, o director-geral da Agência Espacial Europeia (ESA), Johann-Dietrich Wörner, que, apesar de manifestar um apoio claro no projecto de investigação internacional e colaborativo no tratamento e recolha de dados em terra e no espaço a partir dos Açores, hesitou quando foi questionado sobre a importância da criação de um porto espacial no arquipélago. “Isso já é outra história. Actualmente, existem muitas empresas privadas com diferentes actividades ligadas ao espaço e aos lançamentos de pequenos satélites. Há uma actividade global que respeitamos e Portugal tem de olhar para isso”.

Nuno Ávila Martins, diretor da Deimos Engenharia, ouvido enquanto um dos representantes da indústria aeroespacial portuguesa, refere: “Os estudos apontam para Santa Maria como local preferencial: tem menor densidade populacional, é mais austral e, por isso, melhores condições meteorológicas, maior estabilidade do ponto de vista sismológico, e tem algumas infra-estruturas já instaladas como as estações de telemetria e telecomando que servem para rastreamento de satélites”. Tem “só” cerca de cinco mil habitantes, mas esse lado não deve ser desprezado, alerta. “Um projecto como este altera o tecido sócio-económico da ilha. Cria oportunidades de emprego e desenvolvimento, mas também tem um impacto no modo de vida e no ambiente. Temos de acautelar um equilíbrio”, defende, reforçando que “o dimensionamento do tipo de lançadores deverá ser compatível com o que existe na ilha”.

O interesse da Airbus chegou a concretizar-se, tendo os seus representantes chegado a reunir-se com entidades locais e regionais na ilha de Santa Maria onde apresentaram um projeto maior que a própria Ilha que, inclusivamente, revelava um certo desconhecimento das características locais: recursos hídricos, vias de acesso, densidade populacional na área de lançamento, etc.. Ficou claro para todos, inclusivamente para os da Airbus, que tal projeto nunca seria viável em Santa Maria. Tal reunião nunca foi “oficial”, mas reuniu tantas pessoas da ilha que foi impossível esconder a sua realização. Sendo esta proposta completamente impraticável, era assim totalmente posta de parte a possibilidade da construção da base espacial, ou pelo menos, assim se pensava.